Fado em Lisboa

O FADO

“O Fado é a expressão musical da Alma de Lisboa!”

Que magnífica definição! Nenhuma outra transmite tão claramente a ligação entre Lisboa e a música que lhe corre nas veias.

Há dois tipos de fado: o fado de Lisboa (e Porto) e o fado de Coimbra. Em Lisboa e no Porto, o fado é cantado sempre por apenas um cantor.

Em Coimbra, este tipo de música é normalmente cantado por estudantes da Universidade de Coimbra.

O fado de Coimbra também contém humor e temas políticos que podem ser divertidos e polémicos.

Em 2011 o Fado foi classificado pela UNESCO como património da humanidade.

cuca roseta fadista lisboa

A ORIGEM DO FADO

A palavra Fado tem uma origem latina – fatum – palavra que significa destino.

É bem aceite a ideia do Fado ter aparecido na primeira metade do século XVIII, nos subúrbios das cidades. É nas tabernas dos bairros pobres que a frustração e o fatalismo encontram o seu espaço de crescimento e ganham forma num estilo musical melancólico e nostálgico.

Há uma ligação evidente entre o sentimento do fado e do tango. Mas o fado tem uma ausência de expressão corporal. O fado é introversão, intimidade e saudade.

É expressão da alma portuguesa. Uma alma suspensa entre o presente e o passado.  Uma alma que não esquece aqueles que pelo caminho ficaram. Uma alma que sangra mas que também cicatriza.

a origem do fado amália rodrigues lisboa

FADO – PRESENTE E PASSADO

O fado vive hoje (2020) tempos áureos. É hoje, pelas melhores razões, um símbolo de Lisboa e um símbolo de Portugal. O fado é actualmente procurado e apreciado por portugueses e estrangeiros.

Mas nem sempre foi assim. Entre 1933 e 1974, o fado manteve uma ligação estreita com o Estado Novo de Salazar (os famosos três F’s de Salazar: Fátima, família e Fado).

Com a chegada da democracia (revolução dos cravos – 25 de Abril de 1974), o fado viveu tempos difíceis e quase desapareceu das salas de espectáculo. A revolução trouxe consigo um corte com o passado e com os símbolos desse mesmo passado.

Mas nos últimos 15 anos o Fado renasceu. E com este renascimento uma nova geração de fadistas que hoje enchem salas de espectáculo um pouco por todo o país.

O FADO PROFISSIONAL E O FADO “VADIO”

É possível separar o fado em profissional e vadio.

O primeiro é cantado por artistas profissionais que vivem exclusivamente da música. Em 2020, são muitos os artistas portugueses que se dedicam exclusivamente ao fado. Os artistas profissionais cantam em salas de espectáculos e em conceituados restaurantes de fado.

O fado vadio, por sua vez, é cantado em pequenas tascas e bares (o bairro de Alfama e o bairro da Mouraria em Lisboa são dois exemplos flagrantes). Lá, cantam portugueses comuns (taxistas, eletricistas, advogados, gestores…) que partilham o amor pelo Fado.

Ouvir fado numa destas casas é uma experiência sociológica! Lá encontrará pessoas muito diversas e com níveis de talento muito distintos. Alguns cantam o fado muito bem e alguns cantam o fado muito… mal! As atuações menos talentosas são muitas vezes pura diversão!

O fado vadio é cantado pelo povo e para o povo! Cantar o fado vadio é uma catarse. É um meio de traduzir em palavras e em música o que nos vai na alma, o que nos alegra e o que nos magoa. É uma forma de partilhar com os outros “esta coisa da alma”.


fado em Lisboa

O FADO EM LISBOA, NO PORTO E EM COIMBRA – Diferenças

Em Lisboa e no Porto, o fado é cantado habitualmente nos centros históricos, nos seus bairros mais antigos. É cantado em tabernas, tascas e pequenas casas de fado. Os fadistas cantam os seus amores, os seus desamores, o seu amor pela sua cidade, o tempo que passou, as pessoas que perderam.

O fado canta a vida, canta a morte, as coisas que já não podemos mudar e o nosso destino (não se esqueça que “fatum”, a origem da palavra, significa precisamente destino). O fado é o reflexo do espírito português. O reflexo de um coração sofredor que subjuga a razão. Uma música tão bela quanto triste mas que nos aconchega a alma.

O homem que canta o fado fá-lo normalmente de fato escuro. A mulher canta o fado também de negro e com um xaile nos ombros.

O fado de Coimbra, apesar de ser igualmente melancólico, é cantado essencialmente por estudantes que cantam a vida de estudante, a vida em Coimbra, a juventude e os amores e desamores da vida de estudante.

Para cantarem o fado, os estudantes de Coimbra vestem fato negro e capa negra. Ouvir um grupo grande de estudantes de Coimbra, vestidos de preto a cantar fado é uma experiência belíssima. Um lamento entre guitarras que se espalha entre capas e vestes pretas.   

GRANDES FADISTAS (PASSADO E PRESENTE)

O fado está na moda! Esta tendência permitiu o aparecimento de um número muito grande de novos fadistas ao longo da última década (2010-2020).

Identificar os melhores fadistas portugueses do passado e do presente não é uma tarefa fácil e seguramente que não há uma opinião unânime.

Na nossa opinião, há 4 fadistas portugueses que se destacaram de todos os outros.

GRANDES FADISTAS DO PASSADO

ALFREDO MARCENEIRO (1891-1982)

Nasceu em Lisboa numa família pobre. Aos 13 anos, com a morte do seu pai, teve de ir trabalhar para ajudar a sua mãe no sustento da casa. Começou a cantar com amigos e rapidamente começou a ser solicitado pela facilidade com que cantava e improvisava.

Alfredo era um homem bonito, namoradeiro e famoso por andar sempre muito bem vestido e apresentado. Teve filhos de duas mulheres diferentes e pôs fim à sua vida de “dom Juan” quando conheceu Judite de Sousa Figueiredo. O amor entre Alfredo e Judite durou até ao último dos seus dias e dele nasceram três filhos.

Em 1924 ganha um concurso de fado mas na década seguinte (anos 30 do século XX), Alfredo ainda dividia o seu tempo entre os estaleiros da CUF e o fado.

Reformou-se em 1963 após uma carreira de sucesso numa festa comovente no teatro de São Luiz. A sua música mais famosa é provavelmente a “casa da mariquinhas”. Aqui fica.

AMÁLIA RODRIGUES (1920-1999)

A rainha do Fado e aclamada como A VOZ de Portugal!

Famosa em todo o mundo, foi um dos principais rostos de país durante muitas décadas. Era presença permanente em muitas rádios e televisões estrangeiras.

Inovou por ter começado a cantar poemas de grandes poetas portugueses (como servem de exemplo o poeta Luís de Camões, José Carlos Ary dos Santos ou Alexandre O’Neill).

Apesar da ligação estreita entre o Estado Novo (Salazar) e o fado, Amália viu muitas das suas músicas censuradas pela polícia política portuguesa (PIDE). Aquando da revolução, a fadista cantou o hino do 25 de Abril (Grândola Vila Morena) e de alguma forma reconciliou-se com o povo português. Terá inclusivamente apoiado financeiramente o partido comunista português.

Entre os inúmeros sucessos de Amália, destacamos a canção “Estranha forma de vida”. Aqui fica.

FADISTAS DO PRESENTE (E DO FUTURO)

MARIZA

Nasceu em 1973 em Lourenço Marques (atual Maputo e capital de Moçambique). Uma década foi suficiente para que Mariza se tornasse na voz mais importante de Portugal no mundo.

Mariza é hoje uma presença habitual em palcos mundiais famosos como são exemplo o Carnegie Hall em Nova Iorque ou a Salle Pleyel em Paris. Foi já aclamada pelo “Guardian” como “uma diva da música do mundo”. A potência e a beleza da sua voz é assombrosa. Escolhemos o fado “Gente da minha terra”.

CAMANÉ

Carlos Manuel Moutinho dos Santos nasceu em 1966 em Oeiras (distrito de Lisboa). Camané é, na nossa opinião, o melhor fadista português não apenas da actualidade, mas o melhor fadista português de sempre!

Camané reúne na perfeição tudo aquilo que o fado para nós representa. A sua voz e as suas músicas reúnem força, beleza, introversão, mágoa e esperança. Ouvir Camané é sentir Lisboa a tocar-nos na pele. É sentir o nosso passado, o nosso presente e nosso futuro através de uma canção. Para um Lisboeta como nós, ouvir Camané ao vivo é uma viagem interior e um turbilhão de emoções (choramos e rimos).

A nossa sugestão: “Acordem as guitarras”

ONDE PODE OUVIR FADO EM LISBOA?

FADO PROFISSIONAL

Para ouvir fado profissional de grande qualidade, deverá procurar uma sala de espectáculos e neste ponto do artigo já não será difícil adivinhar o nosso conselho…

Procure as datas e os locais dos concertos de Camané na sua página facebook. Os preços dos concertos variam entre 12€ (concertos em pequenas cidades portuguesas e 50€ nos grandes centros urbanos).

FADO DE QUALIDADE

Caso queira passar um belo serão a ouvir fado bem cantado, sugerimos que visite uma casa de fados tradicional. Lá, poderá jantar e assistir a um belo concerto de fado cantado por um cantor profissional de fado. Sugerimos:

CLUBE DE FADO

Situado no centro de Lisboa, próximo da Sé. O restaurante tem uma bela decoração que evoca e relembra o fado tradicional português (antigamente cantado em locais com paredes e colunas de pedra). O espaço é muito aconchegante e a comida é de boa qualidade.

As refeições são acompanhadas com fado e guitarra portuguesa. A maioria dos artistas não são fadistas de topo (não é o caso da fadista da imagem abaixo – Cuca Roseta, uma fadista muito conceituada em Portugal). Ainda assim, cantam bem o fado e são, na sua maioria, semi-profissionais.

O preço médio da refeição é de 40€ por pessoa. Muito frequentado por turistas estrangeiros.

clube fado lisboa

TASCA DO CHICO

Se gosta de luxos, de lugares impolutos e de um ótimo atendimento então… Não vá à tasca do Chico!

A tasca do Chico fica localizada no bairro alto e passar lá um serão é uma experiência sociológica. Lá poderá ouvir fado vadio (alguns pouco talentosos) e pontualmente poderá também ouvir alguns fadistas profissionais que por lá aparecem de forma ocasional e sem qualquer agendamento prévio. Na tasca do Chico pode comer e beber bem por pouco dinheiro e observar uma atmosfera tipicamente portuguesa.

E Portugal não é (só) aquele país maravilhoso que o turismo tenta vender. O verdadeiro Portugal pode ser encontrado também na tasca do Chico, com taxistas e canalizadores a cantar o fado, com um atendimento (às vezes) sofrível e com uma atmosfera de bairro.

tasca do chico - fado - bairro alto

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